AS AVENTURAS DO DR. GEGÊ – O ESQUECIDO

Por Dr. Gegê Olindo – Em 03 de Agosto de 2013

Ah, que dia!

Infantil Gonzaga. Poucas crianças, doutores pra lá de esquecidos, eu, como sempre esbanjando sensualidade, e algumas câmeras filmando nosso Reality Showspital. Com minhas habilidades e experiência em tratamento de miolo mole, a caminho dos primeiros quartos, eu já havia constatado claramente os pensamentos das doutoras, um tanto preocupadas com a filmagem.

Pensavam consigo mesmas:

Levada da Breka: Não fique nervosa, chulé, namorado e milk shake são coisas boas!

Arco-Íris: Abóboras são vermelhas e eu sou linda, linda, linda! Abacate, abacate, abacate.

Flatulência dos Gases: Vou soltar um pum, e ninguém saberá que fui eu – rindo em pensamento.

Prendi a respiração, fingi não saber de nada e continuei caminhando. Realizamos os procedimentos antes de entrar nos quartos, e em duplas de dois, nos dividimos: Arco da Breka e Olindo dos Gases, ou vice-versa.

No primeiro quarto, encontramos um principezinho com nome de origem mexicana – ou similar, os pais, e um casal super simpático, né não, Dra. Flatulência? O pequeno com um ano de idade entendia pouco, mas atento a tudo o que fazíamos, observava. Começou a interagir mais quando fizemos bolhas de sabão. Ah, ele também gostava quando cantávamos a música dos índios que sofrem uma tentativa de homicídio pelo jacaré do rio. Os adultos do quarto se divertiam com as brincadeiras e mágicas que eu e Dr. Flatulência fazíamos – provavelmente não tiveram infância. Ganhamos um beijo do pequeno príncipe, e partimos para o próximo quarto.

Lá, encontramos o E., ô garoto esperto! Adorava uma mágica! Inclusive, fez uma bem bacana. Primeiro ele fez desaparecer um nariz de palhaço com as palavras mágicas “piririm”. Depois, atendendo ao meu pedido, fez a doutora Flatulência sumir também! Mas acho que ele se esqueceu do “m” na palavra mágica, porque de alguma forma, depois de sumir, a Doutura Flatulência acabou aparecendo no banheiro. Pelo visto, estava com um “piriri” danado, pois demorou bastante para sair de lá.

Como todo garoto de 33 anos, ele não tinha medo de nada, só de cobra – em especial, da anaconda, e também de barata! Para ajudá-lo a superar esse medo, fizemos uma espada azul – a espada da água! Então ele falou, mas a anaconda vive na água.

Fizemos outra espada, dessa vez amarela – a espada do fogo! Ele falou, mas a anaconda solta fogo pela orelha! Fizemos outra espada, agora, verde – a espada do vento! E antes que ele respirasse ou dissesse qualquer coisa, falei desesperado, a de vento é boa porque apaga o fogo e leva a água para bem longe. Ele acatou. – Ufa, chega de espadas!

Brincamos mais um pouco, nos divertimos um bocado, e orgulhosos por saber que com aquelas três espadas, o pequeno E. estaria fora de perigo. Fomos embora, pois a Dra. Flatulência precisava passear na cadeira com rodinhas que avistara antes de entrar no quarto.

Sentou-se, linda e bela, empurrei a cadeira para darmos uma volta, e quando terminamos o passeio, vimos que naquele momento, a doutora e a cadeira eram apenas uma. A coitada tentou se levantar, mas a cadeira ficou grudada, parecendo o casco de uma tartaruga velha. Com um pouco de esforço, conseguimos nos livrar da cadeira, agora, não tão atraente como parecia – propaganda enganosa.

Enquanto aguardávamos as últimas gravações do reality showspital, vi que num quarto, o Dr. Xarope Patossi consultava um garoto de onze anos, mas estava na cara que o problema dele não era gripe! Juntei-me ao doutor, e começamos a examiná-lo. O coração no peito do pé não batia, os pensamentos revelavam o seu bom gosto, por não ser fã de funk, e seu riso precisava de uma afrouxada. Vimos que o problema era sério. Acho que o garoto também era doutor, pois enquanto eu tentava encontrar seu coração, ele dizia palavras difíceis, indicando o caminho para o eu chegar lá. Ele falou num tal de tórax perto da barriga, mas com suas instruções, o máximo que consegui, foi ouvir as tripas. Naquele momento, descobri que o seu problema era fome! As tripas diziam: “Tô com fome, tô com fome, tô com fome!” Uma loucura. Também descartamos a possibilidade de ele ser doutor, e trabalhamos com a hipótese de ele ser contorcionista, pois conseguia elevar seus pés até o pescoço! Coisa de outro mundo, né não, doutor? O Doutor Xarope saiu do quarto. Permaneci, na expectativa de afrouxar um pouco mais o riso daquele garoto! Conversamos, fizemos um cachorro, ele relatou que sentia saudades de casa, e que soltava pum fedido – nesse momento nos identificamos. Eu quase propus uma disputa, para ver quem era o melhor! Uma senhora entrou no quarto, também interagindo e brincando conosco, e depois de arrancar outros sorrisos do A., deixei o quarto, feliz por ter descoberto seu problema: fome!

Tudo estava Gege, traduzindo para o português claro, tudo estava lindo! O Plantão havia terminado. Descemos as escadas, e convidei a Doutora Flatulência para dar um pulinho na sala de inalação – ela recusou o convite. Triste e solitário, só que não, lá estava eu, feliz por avistar crianças para examinar! Enquanto aguardavam a vez, examinei o R., o G., e outro pequeno que não recordo o nome. Fizemos dinossauros, dragões e girafas de balão. Brinquei com todos, e foi muuuuuuuito divertido! A experiência de atuar sozinho estava boa até eu deixar a sala de inalação.

- Com licença senhora, viu algum doutor de nariz vermelho, por aí?

- Sim… Eles foram lá para fora!

- Com licença porteiro, manobrista, ou seja lá o que você for… Você viu meus amigos doutores por aí?

- Sim, já foram embora!

- Está me achando com cara de palhaço, né engraçadinho? Essa foi boa… Agora me diga, onde eles estão?

- Se você estiver falando dos doutores que estacionaram o carro lá dentro, eles já foram embora.

Chorei em risos. Pensei, que palhaçada é essa? Olhei pros lados, para baixo e pro alto na esperança de encontrar alguém escondido, mas para minha infelicidade, não era brincadeira. A moça da recepção, solidariamente, ofereceu o telefone para eu fazer uma ligação, mas na memória eu não sabia o telefone de ninguém. Estava eu ali, lindo, lindo, lindo… E, sozinho. Isso me fez refletir. Do que adianta ter tanta beleza e estar sozinho em uma cidade que você mal conhece? Meu subconsciente me respondeu, adianta muito, ser feio e estar sozinho na cidade seria bem pior. Concordei. Esperei. Esbocei. Ninguém. O moço ria da minha cara – estava se rindo muito por dentro. Perguntei como retornar a Rua de Janeiro, e pedi para que avisasse meu itinerário, se retornassem para me buscar.

Logo nos meus primeiros passos, encontrei uma mãe cheia de filhos, dentre eles, um menor, que gritou: Olha o palhaaaaaço mãe! Parei, respirei e respondi com um grande sorriso:

Ôiiiiiiiii!!! Qual é o nome desse príncipe, dessa princesa, desse príncipe, dessa princesa, desse príncipe, dessa princesa e de todas essas crianças liiiiiindaaaas??? Eles responderam e ficaram aguardando minha excelente performance de palhaço. Eu fiz. Fiquei olhando para a cara deles com um grande sorriso amarelo, me sentindo num espelho, pois o sorriso amarelo era recíproco.

Continuei a caminhada. As pessoas olhavam, sorriam, cumprimentavam e procuravam a câmera escondida, que acompanhava o doido vestido de palhaço na Av. Ana Costa. Me senti ainda mais lindo. Quando eu via crianças, corria rapidamente para a outra calçada e dava um tchauzinho de longe. Algumas foram inevitáveis. Eu parava, sorria, brincava e com a voz meio de alegria, perguntava, cachooorro ou espaaaada, coisa liiiiiinda??? Encontrei a C., L., P.H.- que não era o ganso, mas era muito fofo e esperto, e outras crianças.

Noutra parte do caminho, conversei com uma moça que questionara como ingressar no grupo. Eu até falei, mas acho que ela perdeu o interesse de se inscrever, quando soube que me esqueceram no hospital, um doutor pobre, indefeso e lindo.

Cheguei ao camarim. Ufa, chega por hoje, né?

dr-gege